quinta-feira, 16 de junho de 2011

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Ele estava em pé junto a porta, esperando que ela dissesse que tudo aquilo não estava realmente acontecendo. Ela não disse.
Ele, então, tentou segurar o rosto dela, que fugiu de imediato, com lágrimas nos olhos e dizendo:
- Pegue tudo o que tem seu aqui e vá embora, por favor.
Ele, por mais uma vez, tentou um contato físico. Ela hesitou novamente.
Andando desorientado em direção ao quarto, pegou uma mala e guardou algumas peças de roupa, um perfume, dois pares de sapato e um porta-retrado com uma foto dos dois.
Ela era linda e esperava na porta, em prantos, pra que ele saísse.
Disse mais uma vez que ele deveria pegar tudo, pois não o queria ali novamente.
Com um olhar que transpareceria tristeza, ele disse:
- Não levarei tudo meu que tem aqui. Eu estou em você e não tenho como tirar isso. Levo uma mala que mistura roupas com sentimentos e decepções. Com uma frustração muito grande por não ter feito de você, o que eu me prometi fazer. Nessa mala, estão presentes você e toda a nossa história, mas metade disso vai ficar guardada aqui, com e em você.
Dito isso, passou pela porta e caminhou sem mais olhar pra trás.
Uma vez havia ouvido falar que quem se vai e olha pra trás, é porque não ama mais.

pronta

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Sentada junto ao balcão do bar, Amélia espera pela chegada de alguém.
Pede uma vodka com tônica, enquanto olha seu relógio a cada minuto, porém, tendo aquela sensação de que horas haviam se passado.
Entre um gole e outro e antes de olhar as horas, Amélia vasculhava cada canto do estabelecimento - pequeno, mas bem aconchegante. quente, para dias frios como esse - a procura de seu acompanhante.
Ela era uma mulher de meia idade, cabelos ruivos meio desgrenhados, um corpo que era fiel a sua idade, olhos azuis, lábios finos, contornados por um batom neutro - para evitar que sua boca ficasse ressecada com todo esse frio que faz em Porto Alegre - e uma covinha que era trazida por aquela expressão de vergonha que insistia em surgir a cada olhar que ela direcionava ao bar e não encontrava ninguém. Era bonita, em toda a sua beleza de menina-mulher.
Após algum tempo esperando, Amélia se levantou para ir ao banheiro e deparou-se com um sorriso que parecia vir em sua direção. Era um rapaz novo. Desconhecido.
Tendo abaixado a cabeça após desviar o olhar, continuou por seu curto caminho, enquanto refletia se deveria ter devolvido um sorriso ao rapaz.
"Mas e se não foi pra mim?" pensou alto.
"Melhor mesmo não ter feito nada." resmungou novamente.
Em sua volta, encontrou o tal rapaz sentado também junto ao balcão. Em um banco ao lado do que ela ocupava.
Sentindo um pouco de vergonha, Amélia hesitou em continuar caminhando, mas levada pelo pensamento de que essa era uma atitude imatura para uma mulher no auge dos seus 46 anos, seguiu em frente e tomou o seu lugar ao lado dele.
Não era bonito - não pela óptica popular dos padrões de beleza - mas escondia em seus olhos, atrás daqueles óculos, um sorriso que poderia fazer com que qualquer que parasse pra perceber, sorrir junto. Numa troca de olhares.
E foi o que fizeram. Se olharam e sorriram, sem expressar sequer um movimento labial que induzisse um sorriso.
Eram sorrisos de fome, necessidade, de procura e encontro, de uma doçura e pureza que não podem ser descritas em palavras. Eram sorriros de verdade.
Para Amélia, aquela busca infundada que todos fazem pelo tal "amor", é algo inevitável.
"Mas até quando isso seria feito somente por medo da solidão?" Ela se perguntava.
A verdade, dizia ela, é que todo mundo precisa de um motivo pra viver, mas que esse só será forte o suficiente, se trouxer uma vida com ele.
Ela não tinha um motivo.
Ele, então, tomou coragem e perguntou algo a ela, que não ouviu, pois estava vagando em seus pensamentos.
O rapaz repetiu a pergunta:

- Quantas horas, por favor?

- Oi? Perdão. São dez para as nove.

- Obrigado. Sou o Thiago, prazer. Você está a espera de alguém?

Que voz doce, ela pensou.

- Me chamo Amélia e estou sim.

Nesse instante uma voz começou a gritar aos ouvidos dela. Era a sua própria voz:

- ESTÁ ESPERANDO POR ALGUÉM? VOCÊ ESTÁ MALUCA? NÓS SABEMOS MUITO BEM QUE NÃO ESTAMOS ESPERANDO POR NINGUÉM.
(nesse instante o rapaz se retira) VAMOS A LUGARES HÁ ANOS, ESPERANDO QUE ALGUÉM VENHA FALAR CONOSCO E VOCÊ SEMPRE FAZ ISSO! SUA LOUCA! É POR ISSO QUE VOCÊ CHORA AO FIM DE CADA NOITE QUANDO ENCOSTA A CABEÇA EM SEU TRAVESSEIRO: PORQUE VOCÊ PERCEBE O QUÃO MEDÍOCRE É A VIDA DE QUEM ESTÁ SOZINHO.

Em um rápido estalo, ela notou o que havia de errado: ela não estava pronta para o amor. Por mais que o quisesse. E uma pessoa que não está pronta, ela pensou, não tem a condição de se entregar a ninguém. Ela não abrirá mão do que tiver de abrir, não vai entender o que tiver de entender e não vai estar presente, quando mais for preciso.

E é isso o que a maioria das pessoas, nessa desesperada fuga da solidão, faz: entram em relacionamentos que não conseguirão manter. Todos sabem que tudo vai acabar fodido, com mágoas, mentiras, dor e solidão.

Amélia, então, sorriu feliz, por se dar conta de que era diferente. De que não faria isso, enquanto não estivesse pronta. Mas quando estaria? Quando saberia estar? Ela não se importava.

Estava ali, pronta para estar pronta.

Sentada junto ao balcão do bar, Amélia espera pela chegada de alguém.